Cally é missionária, atriz, pedagoga, psicodramatista, palestrante e professora 1


A inglesa Carolyn Jane Cornes Magalhães, ou apenas Cally, é missionária, atriz, pedagoga,
psicodramatista, palestrante e professora do curso de Perdão e Justiça Restaurativa na Penitenciária de Parelheiros, em São Paulo. Ela também é fundadora e coordenadora da Associação Águia, e atua na Fundação CASA com grupos de adolescentes realizando oficinas de psicodrama baseadas na Justiça Restaurativa. Esposa de George Magalhães (também missionário), e mãe de Benjamin (15) e Joseph (13), Cally é a personagem restaurativa escolhida nessa edição.

CDHEP – Qual foi o impacto da formação em Justiça Restaurativa para você?

Cally – A formação em Justiça Restaurativa transformou minha vida. Consegui refletir sobre minha raiva, agressividade e desejo de vingança, e a me colocar no lugar do outro. Aprendi sobre perdão e comunicação assertiva. Na minha vida pessoal aplico esses conceitos todos os dias, e isso tem transformado meus relacionamentos, especialmente, com meu marido e meus filhos.

CDHEP – O que mudou no seu trabalho?

Cally – Trabalho com grupos de adolescentes que estão em fase de desinternação, por meio de oficinas de psicodrama baseada na Justiça Restaurativa. Trabalhamos com adolescentes multireincidentes e os ajudamos a refletirem sobre seus atos infracionais e a se colocarem no lugar do outro, especificamente nos papéis da vítima e do agressor.

Depois de fazer a formação junto ao CDHEP, senti um desejo de aprender mais sobre Justiça Restaurativa, e queria ajudar a equipe da Pastoral Carcerária que oferece o curso nas cadeias de São Paulo. Achei que isso também seria muito bom para meu trabalho na Fundação CASA.Minha intenção era de ministrar o curso uma vez na Penitenciária de Parelheiros, porém, me apaixonei pelo trabalho e estou no quarto grupo, sem previsão de parada.

No último curso, durante a nona sessão, um rapaz me chamou enquanto ele estava escrevendo o mapa do agressor e me disse “quando cheguei aqui tinha decidido que depois de sair eu iria matar minha ex-esposa. Ela e meu pai me abandaram. Eu ia matá-la, mas depois que fiz este curso aprendi que ela também é gente, também tem problemas, não é toda culpa dela, aprendi a perdoá-la – agora eu decidi que não vou mais matá-la”. Para mim isso valeu por tudo e este é só um exemplo de muitas histórias de vidas transformadas através deste curso.

Agora incluímos vários aspectos do curso de Fundamentos de Justiça Restaurativa nas nossas sessões na Fundação CASA. Ensinamos os círculos da Olga Botcharova, os tipos de raiva e também sobre perdão e vingança. Anterior à minha formação em JR, as sessões eram menos direcionadas e agora sentimos que nosso trabalho é mais profundo e eficaz. Dos adolescentes que fizeram 10 sessões ou mais, 80% não reincidiram e agora fomos convidados a começar este projeto em uma unidade de primários na Fundação CASA. Nossa intenção é implementar este projeto em todas as unidades de primários na cidade de São Paulo.

CDHEP – A partir da sua experiência profissional, qual a sua visão sobre a Justiça Restaurativa em uma perspectiva futura?

Cally – No ano passado, eu tive a oportunidade de viajar para a Costa Rica e conhecer uma juíza que implementou círculos restaurativos com todos os adultos primários no país. Destes, 98% não reincidiram. Recentemente, foi promulgada uma lei de aplicação de círculos restaurativos também com adolescentes infratores. Eu acredito que este é um caminho possível para que o Brasil e muitos outros países sigam. Também gostaria de trabalhar para que este curso alcance o maior número de cadeias possíveis, porque é evidente a transformação nos participantes e deveria ser disponibilizado no país inteiro.

CDHEP – O que mais tem a acrescentar sobre seu processo na Justiça Restaurativa?

Cally – Quero agradecer ao CDHEP e à Pastoral Carcerária pela oportunidade e privilégio de trabalhar na Penitenciária e aprimorar meu conhecimento e entendimento sobre JR.


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Um pensamento em “Cally é missionária, atriz, pedagoga, psicodramatista, palestrante e professora

  • Magna

    Gostaria que esse trabalho fosse também aplicado com mais seriedade aqui noRio de Janeiro poissou agegente rali giosa da Pastoral Carcerária ado Degase precisamos muito!